Cachês de Aline Barros (R$ 250 mil) e Bruna Karla (R$ 220 mil) chamam atenção em cidade baiana
Pelos contratos, as apresentações têm duração prevista de 90 minutos, em praça pública, nos dias 7 e 8 de novembro de 2025, às 21h.
A Prefeitura de São Sebastião do Passé, na Região Metropolitana de Salvador, autorizou a contratação das cantoras gospel Aline Barros e Bruna Karla para dois shows durante a Semana da Cultura Evangélica de 2025, com custo total de R$ 470 mil aos cofres públicos.
Os dados constam em publicações oficiais e no Portal da Transparência do município. Em ambos os casos, a administração utilizou a modalidade inexigibilidade de licitação, sob alegação de notória especialização e exclusividade na intermediação dos artistas.
Pelos contratos, as apresentações têm duração prevista de 90 minutos, em praça pública, nos dias 7 e 8 de novembro de 2025, às 21h.
No caso de Aline Barros, o procedimento é identificado como Inexigibilidade nº 041/2025. O extrato registra:
Já a Bruna Karla aparece no processo de Inexigibilidade nº 043/2025, também com intermediação da Criative Music. O extrato aponta:
Somados, os contratos para as duas apresentações chegam a R$ 470 mil.
São Sebastião do Passé tem população estimada em cerca de 41 mil habitantes e indicadores sociais típicos de município de médio porte baiano, com demandas relevantes em saúde, educação, saneamento e infraestrutura. Nessa proporção, o custo dos dois shows equivale, de forma aproximada, a mais de R$ 11 por morador apenas com essa programação específica.
Especialistas em contas públicas ouvidos por veículos locais apontam que a modalidade de inexigibilidade é prevista em lei para casos em que a competição é inviável — como artistas com um único representante —, mas reforçam que a administração deve demonstrar que o preço é compatível com o mercado e que a despesa está alinhada às prioridades orçamentárias do município.
A divulgação dos valores gerou debate entre moradores e lideranças religiosas da região. Entre críticas, o foco não é a presença das cantoras — reconhecidas nacionalmente no meio gospel —, mas o montante destinado aos cachês em um município com orçamento limitado.
Lideranças evangélicas ouvidas sob condição de terem seus nomes alterados para preservação relatam desconforto com a cifra. Para fins desta reportagem, os nomes são fictícios.
O pastor “Carlos Ferreira”, que lidera uma igreja histórica na cidade, afirma considerar o gasto desproporcional:
“Não somos contra eventos cristãos ou a presença de artistas conhecidos. Mas, olhando para a realidade do nosso povo, R$ 470 mil em dois dias de show soa como luxo. Com parte desse recurso, seria possível apoiar projetos sociais permanentes, restaurar templos pequenos ou reforçar ações com famílias em vulnerabilidade.”
Da capital baiana, o pastor “Marcos Andrade”, ligado a uma convenção evangélica regional, diz que contratações desse porte precisam ser melhor explicadas:
“Quando se usa dinheiro público em nome da fé, a responsabilidade precisa ser redobrada. A população tem direito de saber qual critério foi usado, se houve pesquisa de valores e qual retorno social se espera. Sem transparência, tudo parece mais político do que espiritual.”
Já a pastora “Ana Paula Reis”, que atua com projetos sociais em comunidades do entorno, ressalta que a crítica não é às artistas:
“Respeitamos o ministério de Aline Barros e Bruna Karla. A questão é: qual mensagem passa para as famílias que lutam para pagar aluguel e comprar comida verem quase meio milhão de reais em duas apresentações? A igreja também precisa defender o bom uso dos recursos públicos.”
As falas refletem um incômodo crescente entre parte do público evangélico, que vê risco de associação entre grandes cachês e campanhas políticas, além de distanciamento da realidade financeira das comunidades.
Até o fechamento deste texto, não havia nota detalhada publicada com a justificativa oficial da Prefeitura de São Sebastião do Passé sobre os critérios de valor e a escolha das artistas para a Semana da Cultura Evangélica.
Em situações semelhantes, prefeituras costumam argumentar que:
Produtoras e escritórios artísticos, por sua vez, defendem que os valores refletem estrutura de banda, equipe técnica, logística, impostos e demanda nacional.
A reportagem registra que não há qualquer acusação formal de irregularidade até o momento apenas com base na publicação dos contratos. O debate se concentra na prioridade do gasto público, tema recorrente em cidades de médio porte que investem recursos elevados em shows religiosos ou festivais enquanto ainda enfrentam carências estruturais.
Fonte: Fuxicogospel Com